1. vilém flusser, língua brasileira

    vilém flusser no ‘Fenomenologia do brasileiro”. me lembrou uns lances do walter ong sobre culturas orais vs culturas alfabetizadas, mas o VF foca no brasil:

    "A relação entre língua e pensamento é tão forte que tem pouco sentido querer distinguir-se entre ambos. É duvidoso se pensar existe sem língua, e se pensar não passa, no fundo, de um falar baixo (…)
    A discursividade é propriedade das línguas indogermânicas e semíticas, e diz que tais línguas alinham sentenças linearmente, tanto as faladas quanto as escritas. Apenas as indogermânicas escrevem mais linearmente que as semíticas, já que estas, não notando vogais, permitem maior abertura. A conseqüência é que o universo de tais línguas é composto de situações organizadas linearmente, e é isto que se pretende por ‘historicidade’. O habitante de tal universo é o ‘homem unidimensional’, e ele está se tornando problema na atualidade. (…) A discursividade linear não é propriedade de todas as línguas. Não tem sentido falar-se em linearidade do tupi, do bantu, nem, a rigor, da língua japonesa. O universo de tais línguas não consiste de situações organizadas linear e historicamente, mas de situações organizadas de outra maneira. Acrescente-se que nas línguas orientais é preciso distinguir entre fala e escrita, e a escrita tem nitidamente duas dimensões, como os retângulos dos ideogramas. Em tais universos o homem unidimensional não existe. (…)
    O pensamento ocidental, em sua tentativa de romper a unidimensionalidade, recorreu aos porte-manteaux sugeridos pelo grego e alemão (Donaudampfschiff-fahrtsgesellschaft, kallokagathia), e aos ideogramas japoneses (em Ezra Pound, por exemplo). A burguesia brasileira, alienada e voltada para o Ocidente, tomava conhecimento destes esforços. Pois repentinamente descobria que, para buscar -porte-manteaux não precisava viajar até a Grécia, e para buscar ideogramas não precisava viajar até Pound, mas que, em ambos os casos, bastava tomar um ônibus municipal de São Paulo. (…)
    Pode parecer, à primeira vista, que tendências paralelas às aqui enumeradas ocorrem nos Estados Unidos e na Europa, e que tudo isto portanto não passa de defasagem. Seria um erro. Nos países históricos trate-se de tentativa deliberada de romper a linearidade do discurso, mais um sintoma da crise da história mencionada ao longo deste ensaio. E no Brasil trata-se da tentativa de descobrir a própria identidade, que é identidade não-histórica, portanto não-linear e não-discursiva. A prova da diferença é pragmática: as tentativas ocidentais começam a tomar as brasileiras por modelo.”

     
    1. facadeponta posted this